Em busca da mão paternal, Padre Ottomar encontrou sua vocação

Em seu escritório na casa dos padres em Londrina, Padre Ottomar tem milhares de arquivos que espera transformar em livro

Em seu escritório na casa dos padres em Londrina, Padre Ottomar tem milhares de arquivos que espera transformar em livro

Em um pequeno escritório, Padre Ottomar Schneider guarda um tesouro. Relatos de homilias, anotações de palestras, livros, tudo arquivado de maneira organizada. Mas dentro de sua mente, guarda tesouro ainda maior: suas experiências com Padre José Kentenich, o fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt.

Procurando resposta a uma vocação despertada desde criança, o sacerdote não descansou enquanto não encontrou paz espiritual e certeza na sua caminhada dentro de Schoenstatt. Após viver 16 anos com os maristas, pediu dispensa de seus votos perpétuos e foi à procura de Padre Kentenich, a quem já via como pai sem ao menos conhecê-lo.

Apaixonado por história, padre Ottomar percebeu desde muito cedo que é preciso registrar os fatos para se deixar um legado. Atualmente, finalizando um DVD sobre suas vivências com Pai Fundador, ele concedeu uma entrevista à Juventude Feminina de Schoenstatt. Emocionado e com uma memória praticamente impecável, ao lembrar de Padre Kentenich conta que pensava “assim deve ser o Pai do Céu”. [pullquote_left]…ao lembrar de Padre Kentenich conta que pensava “assim deve ser o Pai do Céu”.[/pullquote_left]

 

Conhecendo Padre Kentenich

 

Sua relação com o Pai Fundador começou ainda muito jovem, quando trabalhava na biblioteca dos Irmãos Maristas. Chamou-lhe atenção um livro pequeno, escrito em alemão ainda com letras góticas. Seu superior lhe informou que se tratava do “Rumo ao Céu”, livro de Padre Kentenich, “o fundador do movimento que tem um santuário, onde as pessoas rezam a Maria em frente ao Santíssimo”, explicou-lhe com uma ponta de sarcasmo.

Apesar da crítica, padre Ottomar tentou decifrar o pequeno caderno em versos, com o que sabia de alemão, língua materna de seus descendentes e se viu encantado com o pouco que captou. No final da década de 1940, o provincial do Brasil Meridional dos Maristas, Irmão Vendelino, conheceu Padre Kentenich em uma viagem de trem. O encontro foi o despertar de uma relação entre os jovens irmãos e o carisma schoenstatteano.

Para o padre Ottomar, o amor à pedagogia de Schoenstatt só cresceu e foi assim que, em 1966, ele partiu para a Europa em busca do Pai Fundador.

 

Jufem: Como foi sua primeira conversa com Padre Kentenich?

 

Padre Ottomar: Eu cheguei decidido a falar com o Pai Fundador, mas já me avisaram que seria muito difícil, pois ele tinha acabado de voltar do exílio. Eu perguntei ao Padre Klein como poderia conseguir um contato e ele me disse que fosse à casa de formação e conversasse com a secretária de Padre Kentenich. Eu fui até lá e ela também me falou que era quase impossível, mas pediu que eu voltasse no outro dia às 12h, pois poderia cumprimentá-lo quando ele passasse pelo corredor.

Às 11h30 do outro dia, eu já aguardava e ele abriu os braços e disse “é esse o brasileiro que quer falar comigo”. Passou a mão pelo meu ombro e me levou até uma sala. Ele fez várias perguntas e uma delas me marcou: se os maristas já dormiam em quartos privados. Tinha sido justamente a minha turma que havia implementado essa mudança. [pullquote_right]Não há coisa mais bonita do que ver as idéias e os anseios do Pai Fundador na vida prática dos nossos jovens[/pullquote_right]

O tempo foi passando e eu já estava angustiado. Precisava lhe fazer uma pergunta, pois eu tinha largado a minha comunidade para ingressar em outra recém formada, a dos Padres de Schoenstatt. Eu precisava saber se essa era uma vontade de Deus. Apresentei a ele uma bandeira de nosso país e pedi a sua bênção, ele estendeu as mãos sobre o tecido e disse que abençoava os filhos de Schoenstatt do Brasil do passado, presente e futuro. Essa é uma relíquia histórica que está atualmente em São Paulo.

Por fim, eu não precisei perguntar nada. Ele me disse “se o senhor quer ser padre de Schoenstatt, a única coisa que não pode esquecer é que sua missão entre os maristas continua”.

 

Jufem: Como se deu o início dos estudos? No que o Padre Kentenich lhe marcou nessa época?

 

Padre Ottomar: Em 1967, eu entrei na faculdade para cursar teologia. Eu pensava que iria ser privilegiado, pois estava na universidade logo após o Concílio Vaticano II. Mas eu e os outros seminaristas entramos em uma crise de fé muito grande. Chegou um ponto em que eu não conseguia me ajoelhar diante do Santíssimo, tão grande era minha dúvida.

Diante daquela situação, o Padre Kentenich foi chamado para nos pregar um retiro. Antes do início das palestras, ele passou na sacristia e eu era o sacristão. Ele lia nos olhos das pessoas o que se passava em nosso coração e assim me estendeu a mão. Como todo bom alemão, ele não era de dar abraços ou ficar muito tempo tocando em uma pessoa, mas naquele dia ele segurou a minha mão cerca de um, dois minutos. Quando ele terminou, eu estava aliviado, era a mão paternal.

 

Jufem: Como os seminaristas ficaram sabendo da morte de Padre Kentenich?

 

Padre Ottomar: Nós estávamos tomando café da manhã quando ficamos sabendo. Instintivamente ninguém foi à faculdade. Cada um pegou sua bicicleta e foi até o Santuário, rezar e refletir sobre o significado daquele fato. Depois partimos para acompanhar o velório. No dia do sepultamento havia cerca de seis mil pessoas, eu percebi que aquela era uma data histórica e com um gravador na mão fui fazendo a narração do percurso, como em uma reportagem.

 

Jufem: Qual a mensagem que o Pai Fundador deixou?

Padre Ottomar: É importante que se capte, principalmente no processo de beatificação, que o Padre Kentenich não é um santo a mais. Ele é um profeta do tempo, ele trouxe uma mensagem nova. Ele é um profeta do pensar orgânico que deve ser transmitido nas nossas famílias. Alegra-me em ver a juventude vivendo isso. Não há coisa mais bonita do que ver as idéias e os anseios do Pai Fundador na vida prática dos nossos jovens. Eles estão traduzindo a espiritualidade na vida concreta, isso terá influência na realidade. Era o sonho do Padre Kentenich e também é o meu.

Por: Pauline Almeida / Jufem Londrina

 

Padre Ottomar tem apenas uma foto com Padre Kentenich, que inclusive virou capa de um livro alemão

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Em um vídeo de 1993, o sacerdote mostra a bandeira abençoada pelo Pai Fundador

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Em seu escritório na casa dos padres em Londrina, Padre Ottomar tem milhares de arquivos que espera transformar em livro

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3 Comentários em "Em busca da mão paternal, Padre Ottomar encontrou sua vocação"

  1. É muito forte ouvir do Pe. Ottomar seus testemunhos e como ele se emociona os contando! Através de suas palavras, chegamos até o Pai…

  2. Me lembro de uma homilia em que o Pe. Ottomar fez referência a este momento em que segurando nas mãos do Fundador sentiu-se abrigado. Realmente é tocante e faz com que nossa confiança na intercessão e amor do Pe. Kentenich para conosco, seus filhos de Schoenstatt.

  3. Linda entrevista! Sara, Kátia Simplicio, Katia Rodrigues e eu, tivemos o privilégio de ouvir este relato do encontro do Pe. Ottomar com o Pe. Kentenich contado pelo próprio Pe. Ottomar lembro- me como hoje… Estávamos saindo do Santuário de Jaraguá, quase chegando na estação de trem, quando ele parou e nos ofereceu uma carona, nós nos olhamos e quem não acredita no que está acontecendo dissemos sim. Entramos e quando fechamos a porta caiu uma chuva torrencial! Ficamos imensamente felizes pois estávamos na presença do admirado pe. Ottomar e também por estarmos abrigadas da chuva. Ele nos contou esta história, e todas nós experimentamos a mesma sensação que outrora teve o pe. Ottomar com o Pe. Kentenich. Obrigada Padre Ottomar por esse momento.

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