Ir. Stellamaris: mais de 60 anos de vida religiosa e a graça de ter conhecido o Pe. Kentenich

Quem frequenta há alguns anos a Casa do Movimento do Santuário da Permanente Presença do Pai (Atibaia/SP) provavelmente se lembra de uma irmã que trabalhava na portaria: Ir. Stellamaris. Ela ocupou o cargo por praticamente dez anos, discreta e humilde guardava vivências incríveis que hoje a Jufem Brasil vai poder conhecer.

Os mais de 60 anos de vida consagrada se misturam com a história de Schoenstatt no Brasil: ela chegou a Santa Maria antes mesmo da fundação do Santuário, esteve presente em praticamente todas as visitas do Pe. Kentenich ao país e testemunhou com seus próprios olhos as palavras de profeta e o coração de pai que o Fundador tinha.

A alegria e disposição ao nos receber foi outro grande presente, por uma hora tivemos a graça de viajar no tempo e nos imaginar na presença do Pe. Kentenich. Nas mãos ela trouxe algumas relíquias para compartilhar conosco. As vivências também já foram transcritas para folhas que ela carregava consigo, artimanhas para enganar o tempo e ter sempre vivas as memórias daqueles anos. Como ela mesma nos fala: tudo ficou gravado no coração, mas os anos fazem com que algumas coisas se misturem, então vale recorrer às anotações.

A conversa fluiu naturalmente, eram muitas coisas a serem ditas, pouco a perguntar. Segue agora um breve resumo de nossa entrevista:

Jufem Brasil: Ir. Stellamaris, quais são suas lembranças dos encontros que teve com o Pe. José Kentenich?

O primeiro encontro

Meu primeiro encontro com o Pai se deu no dia 7 de abril de 1948, quando ele veio para a inauguração do Santuário em Santa Maria. O meu curso era de postulantes, e nós íamos receber o vestido no dia 9 de abril. Eu não recebi o vestido durante a visita do Pai, porque em minha consulta médica se constatou uma infecção na apendicite. Foi muito difícil saber que teria que ir para casa, tive que ir para me tratar. Chamamos um táxi, e eu chorava, a mestra também estava comigo, como era difícil ir, sabendo que o Pai estava ali. Mas antes ele me disse: “A senhora vai, vai cuidar bem disso e logo estará aqui de volta”. Na hora em que eu entrei no táxi para ir embora, o Pai, que estava hospedado no quarto ao lado da portaria, saiu na janela e ficou “abanando” para mim, e eu chorava. Foi triste, mas me marcou profundamente.

Um presente especial e uma profecia!

Nós tivemos a vestição em setembro, e agora, em janeiro de 1949, o Pai teve um congresso em Santa Maria. Foi justamente no período da consagração do meu curso. O Pai estava presente, celebrou a missa, e em seguida tomou todas as refeições conosco, imagine nossa alegria. Durante o café, o Pai se interessou em saber um pouco mais sobre cada uma de nós, de onde éramos e qual a origem das nossas famílias.

Nossas famílias eram das seguintes origens: três italianas, uma indiana, uma japonesa, uma portuguesa e quatro brasileiras. Pegando um botão de rosa de um arranjo que estava na mesa ele foi despetalando e tirando as folhas. Profeticamente disse para cada uma, entregando uma pétala e uma folha: “Vais levar Schoenstatt para a Itália” para as italianas, “Vais levar Schoenstatt para a Índia” para a indiana, “Vais levar Schoenstatt para o Japão” para a japonesa, “Vais levar Schoenstatt para Portugal”, para a portuguesa e para as brasileiras deixou a tarefa de “Levar Schoenstatt para todo o Brasil”. E nós nos perguntávamos: será que vão se profetizar as palavras do Pai? A Irmã japonesa, ela não foi para o Japão, assim como a Indiana, mas Schoenstatt chegou lá, a Mãe está lá: através da Peregrina, dos Santuários pelo mundo, a profecia se cumpre. E eu fui para a Itália, como o Pai havia dito. Estive lá por aproximadamente três anos, mas só muito tempo depois, já em 1994. Como o Pai era profeta! No Brasil e no mundo, milhares de famílias recebem a Mãe. Schoenstatt está no mundo.

Como o Pai conhece cada filho

Eu estava com uma infecção no olho, e o Pai soube do problema. Brincando disse que deveria tirar o olho todo para curar a infecção, rindo bateu palmas. Para bater palmas ele fazia assim (a Ir. Faz um movimento com as mãos fechadas, batendo as pontas dos dedões uma na outra). Meses depois, em outra visita, ele mesmo se lembrou de me perguntar como estavam meus olhos, e confesso que eu mesma havia esquecido o que tinha acontecido. Aquilo me impressionou muito, pois eu pensei: “como o Pai que anda por tantos países, lugares se preocupa com cada um?” A gente vê que o Pai se preocupava com todas as pessoas que se empenhavam na missão com ele, não só com as Irmãs. Hoje também, quando selamos uma Aliança com a Mãe de Deus, também selamos com o Pai. Ele nunca nos abandona.

“Ela é tão singela!”

Em 1950, quando o Pai estava novamente no Sul, eu voltei a ter uma infecção no olho. O Pai estava pregando um retiro para os Irmãos Maristas, e as irmãs já não sabiam o que fazer para curar meu olho. Então mandaram perguntar para o Pai o que poderiam fazer. Então o Pai falou: “Tratem dela como se eu estivesse com um problema”. Então elas ficaram pensando o que fariam se o Pai estivesse assim e a solução seria levá-lo a um especialista. Então, na mesma noite fomos para Porto Alegre em busca de um especialista. Vocês devem imaginar a dificuldade da viagem. Naquela época não tinha tanto transporte fácil.

O Pai voltou para o Santuário e eu já não estava lá, mas meu curso estava se preparando para receber o broche. As Irmãs pediram que o Pai desse o broche. Então o Pai perguntou: “Vamos fazer agora ou vamos esperar pela Ir. Stellamaris? Não é melhor esperar? Ela é tão singela!” Eles preferiram fazer a entrega. Mas ele entregou o meu para que me dessem depois e é este daqui (mostra o broche ). Foi bom que aconteceu naquele dia, mesmo não estando lá.

Jufem Brasil: A senhora vivenciou o momento em que o Pai foi exilado. Como foi esse período para o Movimento de Schoenstatt no Brasil?

Esse tempo a gente não tem nem como descrever, porque foi muito, muito difícil. Mas a grandeza fez parte também, no sentido da aspiração. Tudo a gente fazia para libertar o Pai. Uma coisa impressionante, nada era em vão, tudo era para a libertação do Pai. Nós fizemos com uma cartolina um mapa mundial, com a América do Norte, Roma e a Alemanha (Schoenstatt) e um aviãozinho. Então cada sacrifício era para o aviãzinho ir da América do Norte, para Roma e depois para Schoenstatt. Só que nós não podíamos imaginar que seria esse o caminho que ele faria, apenas pensamos nesse trajeto. Imaginem só!!

Mas foi muito triste também ver o Santuário sem Santíssimo. Nós estávamos no jantar quando a Irmã passou pela janela com o sininho e nós sabíamos que era o Santíssimo deixando o Santuário. Ninguém mais queria comer. Foi muito triste, uma dor muito grande.

Jufem Brasil: Irmã, depois de compartilhar tantas vivências, qual mensagem a senhora gostaria de deixar para a Jufem Brasil?

A mensagem seria que o Pai sempre tinha para as jovens a ideia do “Faça-se a Pequena Maria”. Então se a jovem se focar nisso, em ser a Pequena Maria, ela fará a vontade do Pai. Essa deve ser uma jaculatória diária para todas: “Mãe quem me dera ser como Tu”; “Faça-se outra Maria”. Refletir a imagem de Maria. Afinal, vendo as jovens hoje, onde está o ideal da mulher? Temos de ser essa imagem de Maria no mundo!!

Por: Jaqueline Montoya Mariano – Jufem Atibaia

4 Comentários em "Ir. Stellamaris: mais de 60 anos de vida religiosa e a graça de ter conhecido o Pe. Kentenich"

  1. Parabéns pela ótima entrevista!
    Sempre é muito bom ler/ouvir as vivências daqueles como a Ir. Stellamaris tiveram junto fisicamente ao Padre Kentenich!
    Que possamos aprender um pouco com as mensagens desses filhos tão queridos do Pai e Fundador!

  2. Mayra Montoya Mariano | 18 de fevereiro de 2012 at 17:05 | Responder

    Devo confessar que fui com a Jaque no dia da entrevista.. durante a conversa pensava assim.. “quando era Apostola já conhecia a Irmã Stellamaris e não imaginava tudo isso” é emocionante ver sua alegria, convicção e amor por Schoenstatt!!! E como ela repetiu várias vezes na conversa: “O Pai estava lá..” e completou dizendo “na verdade Ele permanece conosco de uma forma diferente”

  3. Gostei muito de ler sobre mais uma vivência com o Pai e Fundador. É lindo conhecê-lo por quem o conheceu. Que a gente saiba também transmitir esse alegre amor a Schoenstatt!

  4. Muito bacana a entrevista! Sempre é bom ouvir de nosso Pai Fundador, especialmente de alguém que o conheceu pessoalmente! Linda a Irmã Stellamaris!

Deixe seu comentário

Seu email não será publicado.


*