Lúcia Rensi: a pequena Maria de 91 anos

Lúcia RensiLúcia Rensi

A cidade de Santa Maria, onde foi construído o primeiro Santuário de Schoenstatt do Brasil, ainda abriga algumas pessoas que conheceram o Padre José Kentenich em suas viagens ao país. Uma delas é Lúcia Rensi, que pertenceu ao primeiro grupo da Juventude Feminina de Schoenstatt do Rio Grande do Sul e, posteriormente, inaugurou a União Apostólica Feminina brasileira. Amiga de longa data da Jufem de Santa Maria, que em 2007 celebrou com ela os 60 anos da sua Aliança de Amor, dona Lúcia agora é apresentada à Juventude Feminina do Brasil inteiro.
O orgulho da história que ajudou a construir e, ao mesmo tempo, a simplicidade de quem é fiel àquilo que ama profundamente, são as características mais marcantes de dona Lúcia, que completou, em 2011, 91 anos. A vivência que dona Lúcia tem do Pai e Fundador é a de uma “filha pequena”, que anseia por conhecer e amar cada vez mais aquele que é o seu exemplo de Deus Pai. Ela queria sempre estar perto dele, absorver sua sabedoria o máximo possível e guardou cada palavra a ela dirigida com a consciência de que milhares de jovens seguiriam o seu exemplo e se consagrariam à Mãe de Deus.
Dona Lúcia nasceu em Santa Maria no ano de 1920 e sempre morou na região da cidade onde foi construído o Santuário. Pensava em ser Irmã de Maria, porém não foi possível e ela soube entender, aceitar e viver a sua missão com fidelidade única.
“Sementes do Reino da MTA” foi o ideal do seu grupo de Jufem, que se consagrou em oito de setembro de 1947, na capela da casa das irmãs em Santa Maria, um dia após o lançamento da pedra fundamental do Santuário Tabor.
Comecei a entrevista com a dona Lúcia contando a ela que, naquela tarde do dia 3 de dezembro, aconteceria a Aliança de Amor de um grupo de dez jovens da Jufem de Santa Maria. Para preservar o sentido e a riqueza de tudo o que ouvi dela, transcrevo a nossa conversa como ela aconteceu, transgredindo o formato da entrevista.

Lúcia – Às três horas? Fica difícil de ir porque depois eu tenho a Missa e eu vou todos os dias visitar o Pai, e depois faço adoração. Eu gosto de fazer adoração diariamente. Quando eu era nova, fazia horas de adoração. E nos anos difíceis nós passávamos a noite em adoração.

Jufem – Como a senhora começou no Movimento?
Lúcia – Mas quem sabe, primeiro, nós virmos aqui no meu Santuário-Lar, onde eu tenho o Santíssimo?
Graças e Louvores se dêem a todo o momento…
Querida Mãe, nosso Pai e Fundador, é com grande alegria que eu recebo aqui a Juliana, neste lugar de Graças, neste Santuário-Lar. Pedimos a proteção e que muitas e muitas jovens venham para a Juventude de Schoenstatt. Tu sabes, Pai, tu nos ensinaste, que não era somente aquele meu grupo, mas muitas nos seguiriam. E agora ela me contou que tem um grupo de pequenas fazendo a Aliança e eu me alegrei muito. Por isso, nós vamos dizer:
Por tudo, tudo, quero graças dar-te, com íntimo amor ó, Mãe, amar-te, o que seria sem ti de nós se assim não nos cuidasse teu amor sem fim. A nós em grande aflição salvaste, em fiel amor a ti nos cativaste, eternamente vou-te graças dar e sempre quero a ti me consagrar.
Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt, rogai por nós
Pai Fundador, José Engling, Gertraud, padre Essig, Pozzobon, João Paulo II e todos os nossos, rogai por nós e intercedei.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e de toda a Família de Schoenstatt.


Jufem – Que lindo o seu Santuário-Lar!

Lúcia – Ele foi bento pelo seu João Pozzobon.

Jufem – Há quanto tempo a senhora tem o Santuário-Lar aqui neste lugar?

Lúcia – Aqui, desde 1975. Foi entronizado aqui nesta casa no dia 19 de março, dia do onomástico do Pai, e aí ele (João Pozzobon) deu a bênção. O Santíssimo eu tenho desde o ano passado, quando o padre me deu a permissão.

Jufem – A senhora leva a comunhão aos doentes ainda?

Lúcia – Eu levava. Por muitos anos eu ia longe, lá para aqueles becos, ia por tudo. Agora, claro, com a minha idade, já não dá. Agora tem a outra ministra que é bem jovem, então eu fico aqui com o Santíssimo. Se precisa, ele está aqui perto.
Mas eu levei muito Jesus. O seu João me entregou uma tarefa, de distribuir a comunhão numa região aqui perto. Então eu cuidava da vizinhança toda e daquela região. Agora a ministra mais jovem faz essa parte. E eu fico em casa, vou à Missa diariamente, graças a Deus. Porque a Missa tem um valor infinito. E alguém sempre me atravessa a rua, por causa do trânsito. Então eu já vou no Pai e dali vou ao Santuário e volto. Eu tenho um vizinho que é muito devoto da Mãe, e então eu volto com ele.
– nesse momento a dona Lúcia se desculpa pela dificuldade ao falar e eu a elogio, dizendo que ela tem a voz ainda bem forte –
Eu fui cantora do coral [da Igreja Nossa Senhora] das Dores, e a minha voz tinha um alcance enorme. A nota mais alta sobrava. Eu cantava Ave-Maria nos casamentos sem acompanhamento. Eu tinha uma missão mesmo e aproveitei a minha Juventude! Graças à Mãe, que me deu forças.

Jufem – Que idade a senhora está agora?

Lúcia – Eu estou com 91. Faz pouco que eu parei de levar a comunhão, e também de cantar. Numa missa que o Pai e Fundador celebrou, em uma vestição das irmãs, eu ajudei a cantar, airmã me convidou. Só não comunguei aquele dia, de boba, porque não estava confessada, e eu achava que não podia.

Jufem – O que a senhora guarda aí? (perguntei apontando para um envelope que ela trouxe do
seu Santuário-Lar)

Lúcia – Aqui eu guardo umas coisas. Este é o primeiro pensamento que o Pai me deu, em 1949. Foi num encontro de Juventude e Senhoras. Está bem velhinho que nem eu, este é o original: “Maria, tu és minha”, ele escreveu em português! Todas pediram autógrafo, mas eu pedi um pensamento: “Maria, tu és minha”.

Jufem – E como foi que a senhora começou em Schoenstatt?

Lúcia – O primeiro encontro da juventude foi realizado no dia 18 de outubro de 1946. As irmãs iniciaram com um grupo de doze jovens do movimento. Depois, por diversos motivos, algumas se retiraram, outras casaram, e nós ficamos em cinco. Essas três aqui e mais duas (mostrando a foto). Uma já está no céu e a outra mora no Rio de Janeiro.

Jufem – Como o grupo se encontrava?

Lúcia – Semanalmente recebíamos formação das irmãs, para nós sermos pequenas Marias. Toda semana nós tínhamos formação e todas sempre vinham. Nós cinco, porque as outras debandaram. Um pontinho que aprendemos muito bem foi levantar na hora certa. Não sei se vocês fazem também o horário espiritual?

Jufem – Fazemos.

Lúcia – Eu aprendi desde o começo. Agora há pouco tempo que eu peguei as cadernetas que já estavam muito gastas e queimei todas as antigas. Eu sempre fiz, desde que eu aprendi. Graças à Mãe eu sempre fiz o meu horário espiritual.

Jufem – A fidelidade é uma virtude da senhora, então!

Lúcia – Sim, e esse pontinho de levantar na hora, foi um dos que eu aprendi primeiro. Muitos pontos, mas esse era especial, não ficar no travesseiro. Porque às vezes a gente pensa “mas está tão boa a cama”, mas não! O relógio chamou, pula da cama! O pequeno Lírio do Pai te saúda!
O nosso Pai e Fundador deu uma reunião para o nosso grupo, na sala das irmãs, na antiga casa, e a Irmã Judite traduzia. Ele nos cumprimentou e expressou muito interesse por cada uma de nós. O Pai e Fundador falou sobre a pequena Maria pura, nobre e serviçal. Esses três pontos. Pura, nobre e sacrifical. A irmã Judite era quem nos preparava e nos preparou para aconsagração à Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt com o ideal “Sementes do Reino da MTA”, vinculadas ao Santuário Original.

Jufem – Aqui não tinha ainda o Santuário?

Lúcia – Quando nós estávamos nos preparando, ainda não. Foi em 1948 a inauguração e em 1949 a coroação.

Jufem – O ideal “Sementes do Reino da MTA” foi o grupo que escolheu?

Lúcia – Sim, a Irmã Judite nos orientou e todas ficamos muito felizes ao descobrirmos o nosso ideal! Nós fomos  recebidas na nossa consagração pelo Pai e Fundador. Nesse dia nós estávamos todas de vestido branco. A Irmã Judite nos disse que era a cor da pureza.
Na consagração, o Pai e Fundador disse: “Eu não vejo somente vós, porém um grande número de jovens vos seguirão”. E agora está espalhada a juventude, né?

Jufem – Sim, está por todo o Brasil! Então no momento em que ele aceitou a consagração de vocês, aceitou também a das que viriam depois?

Lúcia – Claro, pois ele disse: um grande número de jovens vos seguirão. Quer dizer, nós começamos aqui.

Jufem – E vocês tinham essa ideia de que eram o primeiro grupo?

Lúcia – Ora, no momento não. A gente quase nem conhecia Schoenstatt, porque foram em 1946 as primeiras reuniões, com a Irmã Terezinha Gobbo. Ela foi extraordinária para a juventude, trabalhava muito. E muitas vezes, quando ela não podia, ela pedia para eu dar areunião para a juventude. Eu tinha um grupinho de adolescentes lá na Paróquia Nossa Senhora das Dores, um grupo de pequenas Marias.

Jufem – E a senhora encontrou com o Pai e Fundador em todas as suas visitas?

Lúcia – Em muitas. Quando ele viajava, as irmãs faziam uma ala na frente da casa, quando o Padre Kentenich voltava para cá. Elas faziam uma fila e ele dava a mão para cada irmã e dizia “Filha pequena do Pai”. Um dia eu entrei nessa fila e ele me disse: “Filha pequena do Pai”. Eu estava eufórica, louca de vontade de entrar na fila, e a irmã disse: entra.

Jufem – E a senhora não tinha vontade de ser irmã?

Lúcia – Eu tinha, eu queria ser irmã, mas eu fiz uns exames de saúde e eu não fui aprovada. A Mãe não me quis, quis outras.

Jufem – Quis para outras coisas.

Lúcia – Sim. A filha pequena do Pai. Então eu entrei na fila, recebi a mão do Pai, que disse “a filha pequena do Pai”. Eu me alegro todos esses anos que participei da família de Schoenstatt e, mais tarde, da União.

Jufem – A senhora é do primeiro grupo da União?

Lúcia – Sim, aqui também começou com cinco mulheres. Em 3 de março de 1969 nós fizemos a primeira consagração no Santuário. Algumas unionistas vieram de Schoenstatt, arriscando, não sabiam quem iam encontrar, nos convidaram, e nós começamos.

Jufem – E o que a senhora se lembra da sua consagração na Jufem?

Lúcia – Foi um dia lindo! A casa das irmãs era pequena, e tinha uma capela, que agora não existe mais. Foi nessa capela que nós fizemos a consagração. Na frente tinha uma lojinha bem pequena que vendia uns santinhos. Todos iam lá comprar uns santinhos para o Pai escrever. No dia da nossa consagração, as irmãs prepararam um chá festivo e disseram uma mensagem. A casa era bem pequena, tinha uma salinha ali na frente e nós fomos ali. O Pai e Fundador nos ensinou, naquele momento, a oração: “creio que jamais vai perecer, quem à Aliança de Amor fiel permanecer”. E nós devíamos rezar sempre.

Jufem – Rezar e viver, né?

Lúcia – Sim. Em oito de setembro de 2007, a juventude e umas juvenistas participaram da renovação da Aliança de Amor, 60 anos depois. E todo dia 8 eu renovo a minha Aliança de Amor com a Mãe.

Jufem – Alguma do seu grupo ficou irmã também ou não?

Lúcia – Não, nenhuma. Dessas do primeiro grupo, duas casaram e três ficaram solteiras, eu, a Mercedes e a Albina, que já está no céu. Esta é a irmã do padre Vítor, casada, com filhos. Foi muito minha amiga.

Jufem – A senhora uma vez nos contou dos anos difíceis. Começou logo depois da coroação aqui, não foi?

Lúcia – Em 1953 tiraram o Santíssimo do Santuário Tabor. O Pai estava no exílio.

Jufem – E vocês continuaram se encontrando?

Lúcia (sussurrando) – Íamos ao Santuário fazer adoração em segredo. Tem muitas irmãs que nem sabem, mas nós passávamos uma cortina marrom na porta do Santuário, porque vinha gente espiar se nós estávamos ali, entre eles o padre da paróquia. Então a Irmã Terezinha mandou passar uma cortina marrom, para nós fazermos adoração. Um grupo de jovens mulheres e também de homens se reunia.

Jufem – A adoração ocorria todas as noites?

Lúcia – Não, uma vez por semana. Às vezes durante toda a noite, e outras, revezando de hora em hora. Para isso, nós dormíamos na Casa de Retiros. A gente fazia assim: fechava o Santuário, batia na janela, acordava o seguinte e assim se revezava. Não dava para ficar toda anoite, porque no outro dia a gente tinha que trabalhar.

Jufem – E nisso não tinha mais o Santíssimo no Santuário?

Lúcia – Não, ele estava guardado, e nós fazíamos de noite, porque ninguém via. E tinha um porão embaixo do Santuário, nós íamos lá para renovar a consagração escondidas, mas agora fecharam o porão.

Jufem – Vocês usavam esses momentos para rezar pela volta do Pai?

Lúcia – Sim, porque de dia não podia ter o Santíssimo e em algumas noites as irmãs levavam-no para lá. Isso é que tinha que ser escondido e por isso tinha a cortina. Imagina se descobrissem que a gente ia lá rezar? Era para trazer o Pai de volta. O Pai, em 22 de outubrode 1965, foi chamado em Roma. E no 25 de dezembro, ele entrou solenemente no Santuário Original.

Jufem – A senhora já morava aqui?

Lúcia – Não, mas num outro casarão. Aqui foi em 1975, e foi presente do Pai. Em 19 de marçode 1975 nós entramos aqui, no dia do onomástico do padre Kentenich. Aquele casarão onde morávamos antes o meu pai tinha feito, de madeira, e quando ventava nós tínhamos medo que a casa caísse.

Eu trabalhei até os 60 anos no comércio e depois me aposentei. E quando eu me aposentei, a Irmã Jacoba me convidou para trabalhar como voluntária nas relíquias do Pai e Fundador. Ali eu trabalhei quase dez anos.

Jufem – Agora, dona Lúcia, o que a senhora diria para a Jufem do Brasil?

Lúcia – Minha querida Juventude de Santa Maria e de todo o Brasil: o Pai e Fundador quando esteve aqui, em uma reunião ele disse: “Porém eu não vejo somente vós, mas um grande número de jovens vos seguirão”. E eu já estou sabendo que muitas jovens estão participando da juventude de Schoenstatt. E muitas vos seguirão de novo. E agora eu repito com toda a juventude a oração do nosso Pai: “Eu creio que jamais vai perecer, quem à Aliança de Amor fiel permanecer”.

por Juliana Gelatti

7 Comentários em "Lúcia Rensi: a pequena Maria de 91 anos"

  1. Simplesmente: MARAVILHOSO! Que possamos ser fiéis, assim como nossa geração fundadora! Exemplos não nos faltam!!! Lúcia, obrigada por tua fidelidade!

  2. Já são mais de 18 anos que conheço a Sra Lúcia Rensi e não sabia quanta riqueza existe em seu coração de Pequena Maria. É uma graça poder conviver com pessoas que como Lúcia dão um testemunho tão belo de fidelidade à Aliança e vinculação ao Pai e Fundador. Obrigada à Lúcia pelo testemunho e à Juliana por ter dedicado tempo para apresentar-nos pérolas tão preciosas.

  3. Caroline Moraes de Freitas | 23 de janeiro de 2012 at 18:43 | Responder

    Lindo…Quero chegar nesta idade e continuar a me sentir uma pequena Maria como ela!!!!Um grande exemplo para nós!!!

  4. Joelma Francisca Melo | 24 de janeiro de 2012 at 0:54 | Responder

    Linda entrevista. Lucia não faz parte apenas da geração de fundadores da Jufem Brasil, mas da União Feminina. Sou unionista, meu curso é o mais recente e esta entrevista me emocionou muito. Lucia, você é um exemplo de filialidade e fidelidade. Obrigada por seu sim. “Enraizadas no Cenáculo, Jardim de Maria cresce e floresce!”

  5. Anna Carolina Martins | 4 de fevereiro de 2012 at 2:29 | Responder

    Ela é realmente muito especial! Tive a sorte de ser criada por ela, e até hoje por mais que eu não more perto,sinto a força da sua oração ,e do seu amor! É para mim o exemplo de todas as coisas boas que o pai pode nos ensinar,!

  6. Muuitoo Liindooo, qe todaas nó possamos continuar assiim firmes e forte assim como ela . (:

  7. Exemplos de vida que nos encorajam a assumir com mais fervor nossa missão, na Aliança de Amor. Parabéns!

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