“Tudo posso naquele que me fortalece” Filp 4,13

27 de janeiro de 2013, 03 horas da manhã. Nessa hora, celulares começam a tocar em diversos locais da cidade., com notícias que pareciam irreais ou de mentira, ou pedidos desesperados por sinais de vida. Em 234 dos casos, a resposta “eu estou bem” não chegou aos pais, mães, irmãos, namorados ou amigos. Um incêndio que começou com o uso de um tipo de fogo de artifício e se propagou pela espuma altamente inflamável usada no isolamento acústico da boate Kiss, no centro de Santa Maria/RS, levou os mais de mil jovens universitários, militares, estudantes e trabalhadores ao desespero. A fumaça tóxica não deixou boa parte deles pegar fôlego na corrida até a única saída. A maioria se salvou e, entre eles, muitos ainda voltaram ao interior da boate para resgatar amigos e desconhecidos.

Essas vítimas vivenciaram a morte praticada nos campos de concentração, nas câmaras de gás. Cientistas já identificaram que o principal gás usado liberado pela combustão da espuma usada ilegalmente no isolamento acústico era o cianureto, o mesmo usado pelos nazistas. Outros jovens ainda foram alcançados pelo fogo. Já se espalham notícias de verdadeiros heróis, que deram a vida para salvar amigos e desconhecidos.

O domingo amanheceu com a cidade toda em prantos, estarrecida com uma tragédia que até agora parece ficção. As horas se arrastam desde então, e a cidade que era famosa pela alegria da juventude, pelos listões do vestibular, e pelas caras pintadas dos “bixos” passou o dia suplicando para que a lista dos mortos fosse menor do que realmente era, e cada família rezava para que os desaparecidos estivessem fora dessa lista: a salvo ou em algum hospital.

Uma das tantas meninas lindas que partiram estava começando a trilhar seu caminho de Aliança de Amor, e participava do Círculo da Aliança da Jufem Santa Maria. Depois de reconhecer o corpo da filha, a mãe da jovem encontrava consolo junto às Irmãs de Maria: “Agora ela está lá com a Mãezinha!”

Além dos 234 mortos ainda no domingo, na terça-feira faleceu ainda um jovem, de 21 anos, que estava internado em Porto Alegre. O seu irmão mais velho recém tinha sido enterrado. Na quinta-feira, um outro jovem de 20 anos, natural de Santa Cruz do Sul, faleceu no hospital. Mais de mil pessoas passaram pelo seu velório, no ginásio do time de basquete onde jogava.

Dificuldades são tarefas

Por Juliana Gelatti

Naquele domingo, eu estaria de folga. Seria um dia de descanso, já que junto com outras meninas da Jufem de Santa Maria, tinha ido no sábado para Quevedos, que fica a 2 horas de viagem de Santa Maria, para fazer um encontro de formação de dirigentes com o grupo que se formou lá no ano passado. Mas quando a Luma, também da Jufem, mandou uma mensagem para o meu celular às 5 horas falando em pelo menos 30 mortos na Kiss, perdi o sono. Pensava nas pessoas mais próximas que costumavam ir ao local. E quando fiquei sabendo que as minhas primas mais próximas estavam bem, já pensava em me voluntariar para ir trabalhar.

Há menos de um ano, sou repórter de Economia do Diário de Santa Maria, um jornal que pertence ao Grupo RBS. Nunca gostei muito de fazer plantão nas editorias de Polícia ou Geral, já que a possibilidade de reportar tragédias é maior. Até então, o pior que eu já tinha visto no trabalho foi um acidente de carro, em que morreram cinco argentinos da mesma família. No domingo, foram 234 corpos, de jovens entre 18 e trinta e poucos anos. Fui convocada para ir para a redação e às 8h30min cheguei lá. Em seguida fui mandada para o Centro Desportivo Municipal (CDM), onde os corpos estavam sendo reunidos para que fossem identificados. Ao chegar no local, o clima era de guerra. Caminhões com os corpos das vítimas chegavam a todo momento, para serem identificados em um dos ginásios. Na rua, as famílias viviam um misto de esperança e desespero.

Eu me obriguei a ficar “de fora” de todo esse sofrimento, caso contrário, não conseguiria resistir durante os dias de trabalho intenso que se seguiriam. Tentava, então, manter a serenidade no rosto e nas atitudes, dando as informações que eu tinha de modo calmo e dedicado. E nisso já se via um grande contraste com os rostos contorcidos pela dor e angústia ao redor. Busquei forças na minha Carta Branca para ser, para toda aquela gente desesperada, um sinal de paz.

Dentre a grande equipe que se formou na redação do Diário, com repórteres vindos das sedes da Zero Hora em Porto Alegre e Santa Cruz do Sul, e até dos jornais de Santa Catarina, a minha tarefa era ficar atenta a tudo o que ocorresse no CDM e, para isso, estava coordenando uma pequena equipe. As informações eram repassadas por telefone para a redação, e imediatamente publicadas no site do jornal. Vale lembrar que uma cobertura como essa nunca foi feita no Rio Grande do Sul, nem mesmo no Brasil. Era como se dois aviões, lotados de pessoas da mesma cidade e da mesma faixa etária tivessem caído ao mesmo tempo. Nenhum repórter que estava ali sabia como agir nessa situação, e no Diário sempre temos repórteres iniciantes (como eu).

Todos estamos sofrendo, mas precisamos ajudar Santa Maria a voltar ao ritmo, mesmo sabendo que nunca será como a  mesma. Como disse o Pai e Fundador, “dificuldades são tarefas”. Precisamos arregaçar as mangas e, mesmo com os olhos molhados, trabalhar, rezar, fazer sacrifícios para ajudar a curar todas essas feridas.

Eu não poderia me juntar aos jovens da Jufem e do Jumas e às Irmãs de Maria que se reuniram para rezar com as famílias ali e nos hospitais, então decidi transformar meu trabalho em oração e entregar tudo ao Capital de Graças, pela salvação das almas, cura dos feridos e consolo das famílias. Trabalhei com o máximo de agilidade que era possível, e consegui entrar em lugares que outros colegas não tinham conseguido. Fiquei mais de seis horas em pé, sem comer e muitas vezes no sol. Fui a primeira repórter a chegar ao local onde as famílias entravam para identificar seus filhos e, como estava com uma câmera, fiz as primeiras fotos da que ficou conhecida como “sala do desespero”. Os gritos que ouvi do lado de fora do ginásio do CDM, cada vez que um grupo entrava e encontrava suas crianças mortas vão ressoar para sempre nos meus ouvidos.

O domingo se seguiu em um cenário de guerra. Não se via um rosto sem marcas da tristeza, da incompreensão e até do medo de acabar encontrando um parente próximo ou amigo querido na tão temida lista de mortos, que só foi divulgada no fim da tarde pelas autoridades. Em seguida da publicação desta lista, fiquei sabendo por parentes que eu tinha, sim, alguém por quem chorar. Um primo de segundo grau, cuja família vive em outra cidade, era militar em Santa Maria e acabou morrendo na tragédia. A solidariedade entre os colegas de trabalho foi essencial. E o choro segurado durante todo o dia de repente irrompeu nos meus olhos, marcando o fim do meu expediente.

Com a mão no pulso do tempo…

À noite, antes de dormir, tirei um telefone do Pai. Ele dizia: “Primeiro a semente deve ser enterrada e morrer: então produz muitos frutos”. Só assim é possível compreender e aceitar essa tragédia que mudou a vida de toda Santa Maria. Mesmo quem não perdeu nenhum conhecido está de luto. A cidade parou. E por que Santa Maria? Isso eu me pergunto desde domingo, mas sob a luz da Providência parece claro. Somente uma cidade tão unida a Maria no nome, na padroeira Imaculada Conceição, na Romaria da Medianeira, que é uma das maiores do país, no Santuário Tabor, o primeiro do Brasil, onde a Mãe foi coroada como Rainha da Filialidade Heroica; somente a terra de um de seus maiores missionários e promotores da família, João Luiz Pozzobon, e de outros heróis de Schoenstatt, poderia suportar tão grande dor. A própria família do Servo de Deus está de luto por um parente.

Se não unirmos essa cruz à cruz de Jesus, se não unirmos a dor de tantos pais e mães à dor de Maria, não sairemos desta tristeza. Desde domingo, inúmeras vezes a sociedade se uniu para rezar e homenagear aqueles que se foram. Na segunda-feira, 35 mil pessoas fizeram uma caminhada e participaram de um culto ecumênico. Já está programada uma vigília na madrugada em que o incêndio completa uma semana. Mas ainda precisaremos de muitas orações, contribuições ao Capital de Graças, atos de santidade e heroísmo para reerguer nossa cidade.

Este é o ano da Jornada Mundial da Juventude no Brasil. Como Jufem mundial, nos reuniremos no encontro Cor Unum in Patre, Geração 2014. Um só coração no Pai! Santa Maria é o coração do Rio Grande do Sul, seu centro geográfico e também seu jovem coração pulsante, para onde convergem muitos estudantes todos os anos. Vamos nos unir como um só coração em Santa Maria, para elevar o coração do Rio Grande ao coração do Pai do Céu. Temos uma grande missão, pois é nos momentos de maior provação que a fé é reafirmada, ou é perdida. E este é o ano da fé!

Para a Jufem de Santa Maria, o meu pedido é: precisamos refundar nossa cidade, e para isso precisaremos da segunda parte do nome de nosso encontro internacional: Geração 2014. Schoenstatt é filho da guerra, e aqui estamos revivendo os piores momentos das últimas guerras. Que os 100 anos da Aliança de Amor possam ser de alegria genuína e paz em plenitude em todos os corações santa-marienses!

Ser Pequena Maria é isso, sofrer a dor de nossa Mãe, aprender com ela como transformar essa dor em vida e colaborar com os planos de Deus, por mais incompreensíveis que eles sejam no momento.
Veja o relato do secretário nacional do Jumas, Pietro Lovato, aqui.

3 Comentários em "“Tudo posso naquele que me fortalece” Filp 4,13"

  1. Ju, sem palavras seu texto!!
    Toda Jufem se une a vocês nesta corrente de oração pelas famílias das vitimas e por toda Santa Maria. Imagino a angústia de acompanhar tudo isso tão de perto. Mas ao mesmo tempo é lindo ver como nesses momentos a Mãe nos dá forças, nos ajuda a confortar quem precisa e também a superar nossos próprios limites.
    Cor Unum, unidas sempre.

  2. No dia da tragédia demorei a ligar a televisão, e quando vi as notícias meu coração estremeceu! Logo busquei as redes sociais para ter mais notícias, e sim, toda aquela tragédia era real!
    Me perguntei a mesma coisa: Por que Santa Maria? Justo o lugar histórico, e repleto de graças para nós!
    E essa é a resposta; Santa Maria é um lugar repleto de graças, e por isso capaz de suportar toda essa dor!
    E todos os Schoenstattianos assumiram o luto!
    E como você disse Juliana, Schoenstatt é filho da guerra, embora seja difícil compreender, Deus nos deu mais esta cruz!
    Força para todas as meninas de SM, contem com as nossas orações!!

  3. Querida Juliane! Mesmo em atraso, pois na época da ‘tragédia’ eu estava em tempo de formação, quero te agradecer pelo teu testemunho de ‘jornalista schoenstatteana’. Que a Mãe sempre te oriente para encontrares as luzes e forças na Aliança para responder aos grandes desafios da nossa profissão. Isso também é construir ‘Cultura da Aliança’. Deus te pague

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